Senso de organização
O senso de organização, o tino comercial e a pouca ganância fez do meu pai o mais generoso comerciante que eu conheci. Vendia fiado, não recebia e continuava vendendo, penalizado do miserável. Seus métodos anticomerciais o levaram à falência. Não uma falência fraudulenta. Simplesmente não conseguia equilibrar as contas. Pagou fornecedores e vendeu mais uma vez os seus pertences.
Eu já contava catorze anos, e mais seis irmãos, sentia na pele o desespero deles e ainda mais destinholado fiquei quando tomei conhecimento que viríamos para São Paulo. Eu já namorava, tinha uma colega de escola que me fazia soluçar a alma. Menina mimosa, jeito fiel, morávamos na mesma rua, filha de socialista, família de amigos nossos. Recebiamos pequenas mesadas para irmos ao circo, ao cinema, aos parques, nas épocas do Natal, Ano Novo, festas juninas e outras que já não lembro. Aos domingos não íamos à missa. Todavia ainda ouço o badalar do sino da igreja chamando os fieis, o repicar projetava sons que incendiavam a alma parecia festival a céu aberto. Os namorados estremeciam as fibras dos corações que a pulsar de amor manifestavam-se, suspirando sentimentos inenarráveis.
O olhar na imensidão do infinito despertava o meu sonho de um jovem que desejava ser padre, mas que percebia o coração ferver todas as vezes que Norma, minha primeira namorada, passava carregando um punhado de livros, era uma deusa em forma de menina.
Não foram poucas às vezes em que, deslumbrado com a sua presença, acompanhava com o olhar os seus passos ritmados e cheios de encanto, sacudindo areia na roda do seu vestido.
Lembranças de uma infância sadia, repleta de atos que somente a vida é capaz de nos ofertar.
Não vivo dependente desses momentos, todavia a lembrança deles me conduz aos estágios das recordações, movendo minha vida, alimentando-me de saudades de um povo sisudo, porém sincero, dos bares e dos cozidos de caranguejos, da conversa atinada e do clima ameno. Das ruas de areia branca e dos domínios quase medievais. Tudo isto é pouco para descrever a minha cidade, aquela que me fez compreender que os fortes vencerão as batalhas sempre com o sentimento de lealdade, como bandeiras trapejantes nos mastros da existência.
Meu pai, fortaleza em forma de pessoa, sensível aos sofrimentos de outrem porem, as impetuosidade dos seus atos custou-lhe vários desconfortos. Algumas vezes enfrentou desavenças inúmeras pelo seu jeito de nordestino que não levava desaforos para casa. Certa ocasião, um cliente queria um quilo de carne seca de uma manta nova exposta no local de venda, Ele recusou-se a atender porque a tal manta era para ser vendida no dia seguinte. Coisas das suas manias. Questionado pela minha mãe encontrava nele uma forte resistência, criando ainda mais obstáculos e perdas de clientes.
Talvez, movido por sentimentos exóticos deixava-se levar por ações descabidas em prejuízo do próprio negócio.
Nas manhãs, quando o sol beijava o morro de areia e ruas estreitas, surgiam por entre as pegadas que o vento não apagava, mulheres carregando sobre a cabeça protegida por ródias, vasilhas de mungunzá (canjica no sul) vendendo as iguarias saborosas por preços irrisórios. Antes do almoço, lá pelas dez horas vinha um senhor escuro, cor de ébano, carregando um balaio cheio de camarões ainda vivos.
Lembro-me de um ato infantil do meu querido pai, quando mandou confeccionar três ternos para os filhos mais velhos, todos de uma mesa cor e estilo, vestimos porque não poderíamos ter a ousadia de afirmar que não havíamos gostado e que nos sentíramos amuados. São histórias e uma vida.
Se hoje os filhos do seu Antônio e dona Maria colhem os frutos da lealdade e amor pelo trabalho devem aos dois. Eles foram luzes guiando-nos pelos caminhos da existência.
Minha mãe, aos noventa e cinco anos, ainda comanda suas ações de forma lúcida, parecendo uma fornalha, fornecendo energia para todos. Se o meu pai era a locomotiva, que sobre os trilhos da vida conduzia-nos aos caminhos do bem, Dona Maria era o combustível, alimentando-nos dos princípios redentores da trajetória de todos nós.
Devemos aos dois a felicidade do aprendizado, a seriedade o respeito para com todos.
Quando criança, eu; o mais velho- ajudava a pesar mercadorias dos mais variados tipos, aprendi fazer pacotes utilizando papel de embrulho, sentia prazer em ajudar aos meus pais.
Hoje, quando os meus cabelos rareados denunciam um período de maturidade, sinto alegria por um tempo que passou, mas que na minha memória está avivado, denunciando um período de riqueza espiritual.
Que bom seria compreender o mundo de agora carreando para os lares o sentimento de solidariedade sem os traumas da vida sem limites. Pobre sociedade, que pouco-a-pouco vai colhendo os frutos da modernidade sem ter nos recônditos da alma os valores cadenciados de uma era onde o respeito mesmo que amedrontador deixou marcas de amor.
Minha casa, onde eu vivia: Na frente era a mercearia (a bodega do seu Antonio) e nos fundos as várias dependências da moradia, que deixaram em meu ser as marcas de uma época recheada de histórias.
Lá, incrustada no morro do bairro de São Cristóvão, onde o sol e a brisa do mar prazerosamente beijavam as janelas sem vidros, eu e meus irmãos desfrutávamos do presente divino. A vida naquele lugar era um sonho em comparação ao período em que vivíamos na roça.
Pena que o meu pai não era um verdadeiro empreendedor. Sua grande aventura como comerciante era apenas a sobrevivência. A capacidade de organização não lhe concedeu os conhecimentos necessários para um crescimento sustentável.
Ainda tenho saudades das tardes após as obrigações escolares, os jogos de botões, a bola de meia, o bailar das pipas sob o céu azul e o vento generoso. Do pião feito de goiabeira e das castanhas de caju utilizadas como moedas de apostas. Coisas de crianças, parecendo jovens ou adultos.
Quem não viveu esses momentos não conseguem avaliar o quanto eram saudáveis essas brincadeiras.
Comparações com os dias de hoje não são possíveis era outra época, outra forma de viver, e a sociedade ainda não estava contaminada pelo vírus da informática.
Lá se foi minha infância, lá se foi uma parte da minha vida recheada de sentimentos que o tempo não apagou e que manteve o sabor de saudades.
Enquanto escrevo estes relatos volto ao passado, vejo no espelho as marcas do tempo, entretanto sinto na alma os benefícios de uma existência onde os doces das frutas da região deixaram o néctar sublime incrustado em nossas memórias como lembranças de um viver feliz.
Falar das coisas da vida
Com sentimentos de ternura
Faz crescer o ser para Deus.
Mudança para São Paulo
Chegado o dia da partida, eu, Nilton e o meu pai, enfrentamos doze dias sobre um velho caminhão apinhado de gente. Que loucura! Muitas estradas de terra e o Estado de Minas Gerais sinuoso, vegetação verde, campos repletos de café, fartura da lavoura rica e promissora. O sol abrasador castigava a lona velha e furada, o calor era infernal, as paradas para tomarmos as refeições eram sujas, os sanitários mais pareciam pocilgas. O caminhão, um Chevrolet cara de sapo com os degraus do inferno (não acredito na sua existência), e os sacolejos, deixavam marcas de dor, era uma aventura quase endemoniada. Que absurdo! Mas era assim que eu pensava.
Nosso destino era a terra da garoa. Compensava o sacrifício. O pouco tempo que nos separava da terra querida e das pessoas eram por demais doloridos. As conversas giravam em torno dos que lá ficaram. Saudades começavam desabrochar em nossas almas, o coração aos borbotões fazia-nos sentir o rosto suado e empoeirado absorver as lágrimas da separação.
Chegamos mais mortos do que vivos. Fomos morar em Santo André. Era mês de novembro, não tínhamos roupa de frio, nem acomodações que pudessem nos abrigar decentemente. Tomamos um susto maior que os solavancos e perigos enfrentados das poeirentas estradas e daquele caminhão miseravelmente velho.
A saudade de casa, da nossa casa lá no alto do morro da Rua São Cristóvão, da minha namorada Norma, tudo isso se transformava em dores mentais. Olhava o chão, começava a distanciar o pensamento e via escrito naquela terra estranha um que de enigma e saudade que, pouco a pouco, mortificava a alma. Fechava os olhos para não ver o que a mente escrevia naquele espaço. Via outra gente, gente diferente, fala complicada, uma mistura de português com espanhol e outras mais. Continuava pensando.
- Aonde eu vim parar?
Desconfiado, segui adiante, arranjei um trabalho de trocador nos ônibus da Empresa Nossa Senhora Aparecida, do empresário Emílio Guerra. Meu tio e Padrinho Pedro me ajudou.
Naquele tempo, em mil novecentos e cinqüenta e dois, fazia frio, eu trocava o dinheiro dos passageiros e estes decentemente colocavam dentro de uma urna com uma pequena abertura o valor correspondente à passagem, todos faziam isso. Bons tempos. Fomos trabalhando, lutando, o Nilton foi trabalhar numa metalúrgica, fabrica de fechaduras Fama e lá ficou durante quase trinta anos. Meu pai era frentista de um posto de gasolina, e ao chegar à casa minha mãe, que posteriormente viera de avião com os meus demais irmãos, aquecia os pés do nosso velho com pano embebido com água quente.
O Paulo foi engraxar sapatos. Estudou no SENAI tornando-se torneiro mecânico. Tudo isso passamos com heroísmo. Eu me transformei em ajudante de cozinha, depois de passar por tecelagens. Finalmente o meu já velho pai conseguiu um emprego de gerente de uma padaria no largo Treze de Maio, Panificadora 15. A vida melhorava, papai sabia ler, era bom de matemática. Dedicado ao trabalho, ganhou de presente uma casa com quatro cômodos na Rua Intercap, na vila Arriete, onde conseguiu educar os demais filhos:Arnaldo,Djenal, Antonio (filho) e a Enilde.
Parecia que o ar da metrópole paulista já havia conquistado aqueles nordestinos, sentíamos a brisa leve refrescante das noites, talvez nos aconselhando e embalando-nos nos seus movimentos de gigante brasileiro. Passamos a viver decentemente. Nossa moradia era simples, aconchegante e por isso muitas vezes presenciei os meus velhos verterem lágrimas de felicidades descerem pelas fendas nos rostos cansados. Suas mãos elevadas ao céu pareciam agradecer ao Criador as bênçãos recebidas.
Todos nós agíamos com objetivos únicos de habilmente conquistar esta cidade do planalto de Piratininga, terra de Anchieta berço da garoa e braços acolhedores.
A nossa juventude- fase chamada de adolescência- foi a mais tranqüila possível. Minha mãe e meu Pai nos encaminharam para o bem. Até então não tínhamos religião nenhuma, apenas a certeza de que havia uma força criadora a manejar este universo. Eu carregava dentro de mim uma convicção de que tudo possuía começo, meio e fim. Não aceitava essa história de fim do mundo mesmo porque até hoje aceito a idéia de que “Nada se perde e tudo se transforma”.
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