quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sonâmbulo

Sonâmbulo

Sonâmbulo... naveguei entre mares;
Vagas em prantos faziam-me triste;
Pandas ao vento combinando com a lua;
Vaguei entre estrelas, e raios de luz
Nas copas das árvores volitei mansamente...,
Olhando a terra tristonha e aflita;
Divisei a coruja; em voos rasantes;
Insetos beijavam e relva em flor;
O luar prateado esculpia imagens;
Sob o tênue sereno sentia o perfume;
Da dama da noite em seu esplendor;
Quebrando o silêncio na areia da praia;
O mar em seu grito... soluça de dor;
Voltei a mim mesmo sentindo o aroma;
Da noite entre voos da minha ousadia;
...lembrando das nuvens na minha viagem;
Ao som da cigarra... prenunciando...novo dia.


20/05/2011

Manoel Resende

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Desperta
            Homem!
                  São tantos os problemas que se vive no plano terreno, que mergulhado num oceano de lutas segue o homem carregando na alma o peso das suas indecisões.
                  Não basta o desejo e a teoria da necessidade na organização da família, é preciso agir sobre o que foi planejado e impulsionar a vontade na busca de uma nova vida.
                  Quantos lares existem mergulhados em sofrimentos, simplesmente porque não há entendimento! Quantos pais lamentam os erros praticados na educação dos filhos? Quantos redutos familiares estão aprisionados através das fieiras da intolerância?                          Enquanto o pão do Espírito, não for trabalhado suavemente, com os fermentos dos céus, instala-se na massa, os bolores indesejáveis do ódio, da inveja, e da intolerância, desarranjando o produto; tornando-o imprestável para o consumo.
                  O lar sem Deus é uma via de uma mão só; não tem retorno; a não ser através de processos reencarnatórios para o refazimento das tarefas não cumpridas.
                  Ingredientes nefastos tais como: Alcoolismo, fumo, dependências químicas e o desamor, arrastam jovens para o abismo; entre eles os distúrbios sexuais.
          Gestação precoce, separações de casais, sogros, pais e sogras relegados a planos secundários, ou ao abandono em casas de “repouso”. Torna-se um tormento obsessivo.
         Kardec, no livro dos Espíritos na questão 525, pergunta aos Espíritos: Os Espíritos influem sobre os nossos pensamentos e as nossas ações? - Resposta: Nesse sentido a sua influência é maior do que supondes, porque muito freqüentemente são eles que vos dirigem.


         As mais variadas formas de interferência sobre as pessoas dar-se-á nos mais simples acontecimentos da vida.
         Entre familiares, respostas sem conteúdo moral,de pai para filho ou vice-versa, o olhar repressivo repleto de desamor, a indiferença, o orgulho, o autoritarismo perverso, e o ambiente sem Deus cria um ninho perfeito para a incubação dos agentes desagregadores do bem.
         O homem orgulhoso afirma constantemente, que a crença em Deus é invenção do ser humano para justificar a sua auto-suficiência; entretanto aquele que deseja descobrir Deus deverá consultar a sua inteligência e perguntar: Onde encontrar Deus? Nos altares adornados? Na suntuosidade dos templos? Nos rituais? Ou no templo do universo onde a natureza fornece respostas convincentes?
         Descobrir Deus é voltar os olhos para o desabrochar de uma flor, para o trabalho dos insetos, que fertilizam plantas, ou para o agitar das ondas batendo no rochedo. Descobrir Deus é sentir o bater do coração, é ouvir o chamamento divino quando nos coloca diante de algumas provações, para que possamos despertar o amor universal.
Descubra você mesmo a presença do Onipotente, e descortinarás uma nova tela no panorama da vida.
         Dê aos seus familiares um voto de confiança, ofereça um olhar de amigo e receba de todos, um voto de gratidão e o respeito para que possam caminhar juntos.
         Desperta homem? O relógio do tempo está anunciando o raiar de uma nova jornada. Cultivar no coração dos familiares o sagrado dever de viver feliz é descobrir Deus.  E que o “ VIVER EM FAMÍLIA, SEJA ETERNAMENTE UMA GRANDE IDEIA.”

Manoel Resende
Senso de organização
            O senso de organização, o tino comercial e a pouca ganância fez do meu pai o mais generoso comerciante que eu conheci. Vendia fiado, não recebia e continuava vendendo, penalizado do miserável. Seus métodos anticomerciais o levaram à falência. Não uma falência fraudulenta. Simplesmente não conseguia equilibrar as contas. Pagou fornecedores e vendeu mais uma vez os seus pertences.
Eu já contava catorze anos, e mais seis irmãos, sentia na pele o desespero deles e ainda mais destinholado fiquei quando tomei conhecimento que viríamos para São Paulo. Eu já namorava, tinha uma colega de escola que me fazia soluçar a alma. Menina mimosa, jeito fiel, morávamos na mesma rua, filha de socialista, família de amigos nossos. Recebiamos pequenas mesadas para irmos ao circo, ao cinema, aos parques, nas épocas do Natal, Ano Novo, festas juninas e outras que já não lembro. Aos domingos não íamos à missa. Todavia ainda ouço o badalar do sino da igreja chamando os fieis, o repicar projetava sons que incendiavam a alma parecia festival a céu aberto. Os namorados estremeciam as fibras dos corações que a pulsar de amor manifestavam-se, suspirando sentimentos inenarráveis.
O olhar na imensidão do infinito despertava o meu sonho de um jovem que desejava ser padre, mas que percebia o coração ferver todas as vezes que Norma, minha primeira namorada, passava carregando um punhado de livros, era uma deusa em forma de menina.
Não foram poucas às vezes em que, deslumbrado com a sua presença, acompanhava com o olhar os seus passos ritmados e cheios de encanto, sacudindo areia na roda do seu vestido.
Lembranças de uma infância sadia, repleta de atos que somente a vida é capaz de nos ofertar.
Não vivo dependente desses momentos, todavia a lembrança deles me conduz aos estágios das recordações, movendo minha vida, alimentando-me de saudades de um povo sisudo, porém sincero, dos bares e dos cozidos de caranguejos, da conversa atinada e do clima ameno. Das ruas de areia branca e dos domínios quase medievais. Tudo isto é pouco para descrever a minha cidade, aquela que me fez compreender que os fortes vencerão as batalhas sempre com o sentimento de lealdade, como bandeiras trapejantes nos mastros da existência.
Meu pai, fortaleza em forma de pessoa, sensível aos sofrimentos de outrem porem, as impetuosidade dos seus atos custou-lhe vários desconfortos. Algumas vezes enfrentou desavenças inúmeras pelo seu jeito de nordestino que não levava desaforos para casa. Certa ocasião, um cliente queria um quilo de carne seca de uma manta nova exposta no local de venda, Ele recusou-se a atender porque a tal manta era para ser vendida no dia seguinte. Coisas das suas manias. Questionado pela minha mãe encontrava nele uma forte resistência, criando ainda mais obstáculos e perdas de clientes.
Talvez, movido por sentimentos exóticos deixava-se levar por ações descabidas em prejuízo do próprio negócio.
Nas manhãs, quando o sol beijava o morro de areia e ruas estreitas, surgiam por entre as pegadas que o vento não apagava, mulheres carregando sobre a cabeça protegida por ródias, vasilhas de mungunzá (canjica no sul)  vendendo as iguarias saborosas por preços irrisórios. Antes do almoço, lá pelas dez horas vinha um senhor escuro, cor de ébano, carregando um balaio cheio de camarões ainda vivos.
Lembro-me de um ato infantil do meu querido pai, quando mandou confeccionar três ternos para os filhos mais velhos, todos de uma mesa cor e estilo, vestimos porque não poderíamos ter a ousadia de afirmar que não havíamos gostado  e que nos sentíramos amuados. São histórias e uma vida.
Se hoje os filhos do seu Antônio e dona Maria colhem os frutos da lealdade e amor pelo trabalho devem aos dois. Eles foram luzes guiando-nos pelos caminhos da existência.
Minha mãe, aos noventa e cinco anos, ainda comanda suas ações de forma lúcida, parecendo uma  fornalha,  fornecendo energia para todos. Se o meu pai era a locomotiva, que sobre os trilhos da vida conduzia-nos aos caminhos do bem, Dona Maria era o combustível, alimentando-nos dos princípios redentores da trajetória de todos nós.
Devemos aos dois a felicidade do aprendizado, a seriedade o respeito para com todos.
Quando criança, eu; o mais velho- ajudava a pesar mercadorias dos mais variados tipos, aprendi fazer pacotes utilizando papel de embrulho, sentia prazer em ajudar aos meus pais.
Hoje, quando os meus cabelos rareados denunciam um período de maturidade, sinto alegria por um tempo que passou, mas que na minha memória está avivado, denunciando um período de riqueza espiritual.
Que bom seria compreender o mundo de agora carreando para os lares o sentimento de solidariedade sem os traumas da vida sem limites. Pobre sociedade, que pouco-a-pouco vai colhendo os frutos da modernidade sem ter nos recônditos da alma os valores cadenciados de uma era onde o respeito mesmo que amedrontador deixou marcas de amor.
Minha casa, onde eu vivia: Na frente era a mercearia (a bodega do seu Antonio) e nos fundos as várias dependências da moradia, que deixaram em meu ser as marcas de uma época recheada de histórias.
Lá, incrustada no morro do bairro de São Cristóvão, onde o sol e a brisa do mar prazerosamente beijavam as janelas sem vidros, eu e meus irmãos desfrutávamos do presente divino. A vida naquele lugar era um sonho em comparação ao período em que vivíamos na roça.
Pena que o meu pai não era um verdadeiro empreendedor. Sua grande aventura como comerciante era apenas a sobrevivência. A capacidade de organização não lhe concedeu os conhecimentos necessários para um crescimento sustentável.
Ainda tenho saudades das tardes após as obrigações escolares, os jogos de botões, a bola de meia, o  bailar das pipas sob o céu azul e o vento generoso. Do pião feito de goiabeira e das castanhas de caju utilizadas como moedas de apostas. Coisas de crianças, parecendo jovens ou adultos.
Quem não viveu esses momentos não conseguem avaliar o quanto eram saudáveis essas brincadeiras.   
Comparações com os dias de hoje não são possíveis era outra época, outra forma de viver, e a sociedade ainda não estava contaminada pelo vírus da informática.
Lá se foi minha infância, lá se foi uma parte da minha vida recheada de sentimentos que o tempo não apagou e que manteve o sabor de saudades. 
Enquanto escrevo estes relatos volto ao passado, vejo no espelho as marcas do tempo, entretanto sinto na alma os benefícios de uma existência onde os doces das frutas da região deixaram o néctar sublime incrustado em nossas memórias como lembranças de um viver feliz.
                                                                                             
Falar das coisas da vida
Com sentimentos de ternura
Faz crescer o ser para Deus.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Não é de bom alvitre relembrar tantas dificuldades que se foram, todavia o passado nos conforta em comparação com o presente. Hoje, aos setenta e... anos, revivendo e revirando o passado, compreendo que Deus foi generoso com todos nós.
            Não foram poucas as agruras vividas. Tinha eu apenas sete anos.  As lembranças vividas permanecem até hoje, ocupando espaço na minha alma, despertando uma vontade de chorar e agradecer o que foi a minha infância e o lugar onde nasci.
            Lugarejo pobre, sem recursos, como tantos neste Brasil: Divina Pastora, Sergipe. Foi lá onde iniciei os primeiros passos e aprendi as primeiras letras. Brincava de cavalinho de pau, andava pela roça de forma destemida. Via alguns bichos próprios da região. Aprendi montar e levar os animais para beberem água no açude próximo da minha casa.
                        Luta sem tréguas, guerras sem armas, foi assim que meu pai, afetuoso e decidido, rompeu as barreiras dos sonhos... sonhados em noites de insônia.
            Os sete filhos eram seus desafios. Haveria de conquistar outras regiões, tornar-se um herói com as armas dos valores da alma.
            Hoje, quando escrevo estas reminiscências,lágrimas vertem dos meus olhos, numa lembrança de ter vivido ao seu lado. Seus braços fortes, o seu coração sensato, a sua força interior, pareciam um vulcão em erupção. Seu olhar de herói que vislumbrava o infinito, numa ação profética acende uma fogueira em mim despertando-me para compreender o mundo que hoje compartilho com os meus.



















Aracaju...
            Aracaju, nome indígena, mistura de povos, sabores da vida, culinária rica e gostos divergentes. Terra do coco, do camarão farto, das praias limpas, das ruas paralelas, dos poetas e cantadores, das rendas e das rendeiras.
            Cansado de tanto sofrimento, tomou a decisão acertada de mudar-se com toda a família para a cidade emergente de Aracaju.
            Vendeu seus pertences e, explorado por um dos meus tios, juntou o pouco dinheiro, o suficiente para montar uma pequena mercearia na cidade, na Rua São Cristóvão com Avenida Pedro Calazans.
            Cidade nova, desprovida de alguns recursos, mas que apresentava nuances de uma evolução comercial. Bons colégios onde estudamos. No Grupo Escolar Manoel Luiz, desenvolvi minha aptidão pela leitura... Pois certa ocasião teria que compor um histórico que falasse da cadeira, me empolguei e tirei uma nota cem. (dez, como é feito hoje). Citei o invento, sua utilidade, a longevidade da sua origem e a eternidade da sua função, entre os mais belos feitos, o de presentear a família ao redor da mesa ou do aluno sentado, servindo-se dela para escrever comodamente, desenhar e compor as páginas que contam histórias de nossas vidas...
            Dos sete aos catorze anos tivemos momentos alternados de farturas e lutas.          Decididamente a mais bela e pequena capital do Nordeste, a primeira a ser planejada tal qual um tabuleiro de xadrez, nos presenteou com momentos de paz, abundância e felicidade.
           
Aracaju, Rua da Frente, Ponte do Imperador, Barra dos Coqueiros, Bairro de Atalaia, Bairro industrial, com a Tecelagem Confiança, ofereciam sinais deslumbrantes de uma cidade promissora. O Mercado Municipal, rico em variedades de frutas, legumes e cereais da região, condições básicas para um povo simples. Havia fartura e tudo o mais que o povo precisava.
            Entre os habitantes ilustres Tobias Barreto, poeta renomado que desafiava o baiano Castro Alves em pelejas ricas de versos e poesias. A família dos Mendonças, o Zé Peixe, prático habilidoso e exímio nadador, jogava-se ao mar para acompanhar os navios que necessitavam ancorar na entrada do porto com o seu leito lodoso e raso em alguns lugares, tema de políticos que não chegavam a lugar nenhum.
            Aracaju, cartão postal do Nordeste, com os hábitos de uma cidade mansa, pessoas amigas desfrutavam da brisa noturna sentadas em suas varandas contando histórias ou apreciando o luar sob as bênçãos de uma brisa aconchegante.
            O bairro onde eu morava era o viço de areia cristalina, fofa e aconchegante para andar descalço e o mote de poesias para os poetas do entardecer. Como é bom relembrar os momentos da infância desfrutando das noites de luar, onde os sonhos acalentavam uma fase da vida qual ato de uma peça de amor. Muitos foram os encontros com os amigos de infância, os jogos de bola de meia e o fervor da adolescência com os sonhos da juventude. Foram momentos inusitados que desfrutamos, alimentando a alma de esperanças e fantasias que o tempo não apagou.
           
As brincadeiras na rua do meu tempo de criança de cavalinho eu brincava...
            Ao mesmo tempo eu olhava as brincadeiras de roda
E as meninas na rua cantigas até cantavam algumas bem engraçadas.
Faziam promessas à lua
Ah! As brincadeiras da rua...
Da minha rua querida onde todos lá brincavam com sentimentos de amor
Lá sim é que eu brincava...
Nas noites de lua cheia sentados todos na areia
Sonhava com o crescer criava sonhos bonitos
Puro só se pensava no bem
Não havia televisão.
O rádio sim existia
E quando o sol se escondia rezava uma suave oração
Ah! Como criança brincava...






segunda-feira, 27 de junho de 2011

Quando menino, desfrutei de uma condição pobre, quase miserável, mas nunca perdia as esperanças de dias melhores. Assim aprendi; assim continuei sonhando; procurando, no clarão da lua, os querubins que poderiam nos ajudar.
            Lembro-me de tudo isso - recordo com desejo de agrupar palavras para compor versos de amor à minha casa de pau a pique, do oitão onde dormia uma cabra leiteira, salvação para os três irmãos: Manoel, Nilton e Paulo...
            No fundo, um cajueiro saudoso rendilhava no chão, os raios do sol e da lua cheia. Todos os dias, frutos doces saciavam nossos desejos de nos alimentarmos do necessário para romper o dia seguinte. Os frutos cintilavam nas noites, perfumando o espaço onde brincávamos. As roupas aos frangalhos, eram coloridas com as nódoas do fruto generoso da terra escaldante, e do néctar bendito, que escorria sobre o peito, descendo sobre a pele da barriga empoeirada. Essa foi minha infância, meus primeiros passos, e sentimentos, que suspirei em ritmo de dor e fé.
            No sertão nordestino, crianças não fazem dengo para comer. Se a terra produz alimentos são eles os elementos essenciais para complementar a alimentação escassa de um lugarejo que eu não sei se nos mapas deste País existe.
Pobre período...
Dolorosas recordações...
            Meus pais, dedicados à terra quais rochas, não perdiam as oportunidades de enriquecer a plantação com as sementes generosas. Nos meses que antecediam as chuvas preparavam a terra de forma artesanal, revirando e retirando as impurezas como se fosse uma renovação da alma.
            Desfrutando de parcos recursos de um alquimista, davam au seu trabalho uma forma grandiosa e enobrecedora. Ao brandirem no chão gretado as enxadas, escorria de suas faces o suor que milagrosamente caia sobre a terra como se fosse um ritual de pura simbiose, revigorando-a tal qual uma bênção de luz.
            Embora nossa situação fosse de quase miséria a coragem dos meus genitores era uma realidade. Certamente não seria possível descrever esta história de dor e saudades. Saudades sim! Porque viver no agreste é alegria, superando a dor, com o cheiro da terra quando o inverno aparece.

                                  Chuvas de inverno
                                   Pingos no telhado
Esperança bailando
Alegria futura
                                   Sementes na terra
Esperança de luz
                                   Riachos subindo
                                   Sonhos de paz
            Antônio, o meu querido pai; homem honrado, um tanto enérgico. Carregava na alma o gosto pelo trabalho. Sentia o cheiro da terra; comungava dos sentimentos de ousadia e esperança, agradecia a Deus pela sua força interior, detinha os conhecimentos da sobrevivência com uma ciência intuitiva. Sábio, guerreiro; amansador de burro xucro, explorado pelo seu próprio irmão, agia com lealdade e espírito de uma tenacidade comovente.
            Aventureiro como todo nordestino, desfrutava do respeito para com aqueles com os quais dividia conquistas e honradez vindas do berço.
            Coração generoso e sensível detinha conhecimentos da política brasileira, que o inconformava, devido às desigualdades sociais. Gostava de gente, sentia pelo próximo sentimento de irmandade apreciava música, levava a dura vida, tal qual um poema que fala de esperança, de dores e sofrimentos.
            Minha mãe, tudo indica, é descendente de espanhóis, traz em seu nome Sousa e Oliveira, uma mistura quem sabe também de portugueses, brava sem ser maldosa.         Sentimento altivo chora e rir das coisas da vida.
            Natureza ativa, discordante, teimosa, porém decidida. É possível que eu tenha herdado dela, o arrojo e a coragem sempre presente. Maria; como era chamada pelo meu pai, é uma alma generosa, sábia e desconfiada. Filha de negociantes, tem muito apego aos seus pertences. Ainda guarda peças do seu casamento, sofre desnecessariamente por isso. Porém é o seu jeito de ser. Tomei muitos cascudos e puxões de orelhas. Não guardo mágoas, seus dedos é que eram fortes e minhas orelhas avantajadas, herança do meu pai.
            Por mais que eu possa descrever suas personalidades, será sempre pouco, diante do que representaram para os filhos. Prefiro lembrar que, apesar do pouco conhecimento das letras, suas aptidões pela vida e educação dos filhos foram copiadas do modelo antigo, um pouco castrador, porém eficiente. Se hoje os métodos mudaram ficam devendo em algumas coisas.
            Lembro bem de tudo que passei naquela casa de taipa, portas e janelas rudimentares, telhado primitivo, heranças de uma época de poucos recursos, que deixavam passar além do brilho das estrelas, algumas gotas de chuva, respingando o chão de terra batida e as redes onde dormíamos.
            A engenhosidade para criar os filhos deixava marcas na alma dos meus pais, as incertezas do amanhã, os recursos ínfimos eram sinais de uma eternidade. Dava pena ver o meu pai passar semanas a fio trabalhando nos engenhos de açúcar.           Apesar da minha pouca compreensão eu sentia sua falta e a sua voz. Minha mãe destrambelhava-se, assumindo os compromissos da família. Era uma luta infernal. Poucos recursos. Uma existência de sofrimentos.
            Se não tínhamos o que comer, era feito uma fritada de maturis, utilizando ovos e farinha de mandioca.
            Não é de bom alvitre relembrar tantas dificuldades que se foram, todavia o

                                      CHÃO DE MEMÓRIAS
O Nordeste
         O lugar onde nasci é pródigo em cultura agreste. Sertão pobre, solo ardente, sol abrasador, vegetação retorcida, formam as caatingas e o cenário de um povo forte, que enfrenta a vida cheia de aventuras, cujo sonho de ser feliz ferve na alma.
            Gente de fibra, aventureiros por natureza, coração fraterno combinado com a generosidade do Criador.
            O sertanejo é forte, esperançoso e crente da sua fé. Lembro-me de alguns de olhos azuis ou esverdeados, raízes da miscigenação de raças, cujas matrizes vêm dos exploradores e aventureiros do passado, que lhes negaram quase tudo.
            Holandeses, franceses e portugueses fincaram no rincão do Norte e Nordeste marcas cuja história é por demais sofrida e exposta em prosa e versos nas feiras, nos encontros de violeiros e repentistas. Têm nos seus expoentes culturais como Rachel de Queiroz, José de Alencar, Rui Barbosa, Castro Alves, Tobias Barreto e muito outr os  a chama viva de uma cultura que até hoje é  ícone de referência para quem ama sua terra.
            Divulgadores da história de um povo que sonha, ama, sofre e alimenta-se de esperanças. Traçaram com maestria, as elegias da minha gente sofrida, mas que purificaram a alma com o tônus da felicidade.
            Inúmeros nordestinos, fincados nas regiões do cerrado, calçando alpercatas de couro cru, seguem desafiando a própria natureza, suportando bravamente o calor sufocante e a subjugação do coronelismo perverso.
            Enfrentando as adversidades, escrevendo suas vidas sob o sol a pino e a terra gretada, encontrando o mote no sofrimento, conquistam na sensibilidade motivo para compor a vida entoando canções e poesias vindas do espírito aventureiro e, ainda assim, com emoção rica e farta de lirismo.
            Homens destemidos e ousados. Continuam desafiando leis. Até para nascer é uma bravura enfeitada de dores e dogmas.
            O amor do sertanejo parece o gosto do gato, que ama somente a casa e não o dono. O que não é verdade. O caboclo do Norte e Nordeste carrega no coração o espírito aventureiro, o amor a sua gente, a sua terra e aos seus costumes.
            O calor sobre os morros petrificados é o início de uma oração de clamor aos santos. Cactos e répteis, fazem daquele braseiro, o santuário para reprodução.
             Nas noites de lua cheia resplandece o clarão do amor, quais pétalas divinais convidando sonhadores para suas promessas e encantos.
Richard Simonetti

1 – Diante dos lamentáveis acontecimentos na escola do Bairro de Realengo, no Rio de Janeiro, podemos dizer que as crianças assassinadas cumpriram um carma?
                        Negativo. Se assim fosse, estaríamos justificando o criminoso. Sua iniciativa seria de inspiração divina. Estaria atuando como instrumento de Deus. Quando muito, foi instrumento de Espíritos interessados em semear a confusão no Mundo.

2 –     Há uma base doutrinária para essa afirmação?
                        Na questão 746, de O Livro dos Espíritos, pergunta Kardec: É crime aos olhos de Deus o assassínio? Resposta do mentor: Grande crime, pois que aquele que tira a vida ao seu semelhante corta o fio de uma existência de expiação ou de missão. Aí é que está o mal. Fácil concluir que nenhum assassinato está escrito nas estrelas.

3 –     Podemos dizer que os jovens assassinados não tinham que morrer assim? Sofreram um acidente de percurso?
                        Sem dúvida. Isso aconteceu em razão da inferioridade humana. Não obstante,  foram muito bem recebidos no Além, na condição de vítimas. Continuarão seu processo evolutivo na dimensão espiritual, amparados por seus mentores.

4 – E quanto ao criminoso?
                        Este é digno de lástima. Está comprometido com o assassinato e o suicídio. Assumiu débitos cármicos que exigirão séculos para o resgate. Aprenderá, à custa de muito sofrimento, que é preciso respeitar o próximo, não fazendo contra ele nada que não queiramos para nós, se ainda não somos capazes de fazer por ele todo o bem que desejamos receber.
                       
5 –     Não é assustador considerar que coisas más podem acontecer com gente boa, independente de um destino traçado?
                        O destino traçado por Deus, a meta que todos devemos atingir, é a perfeição. Acidentes de percurso são decorrentes da imperfeição humana, no estágio em que nos encontramos. Não obstante, agitam o psiquismo humano, e acabam revertendo em favor de nossa evolução, apesar  dos transtornos que ocasionam.

6 –     Produzem progresso?
                        Ajudam a desbastar nossas imperfeições mais grosseiras.          No passado, quando a produção de pregos era imperfeita, eles ficavam com rebarbas. Eram, então, colocados num tambor que girava. O atrito as eliminava. Os atritos a que somos submetidos na Terra ajudam a superar as rebarbas espirituais, da animalidade primitiva.

7 –     Não é nada consolador para as vítimas saber que estão sendo atritadas em favor de sua evolução.
                        O consolo vem da Doutrina Espírita, explicando-nos que a morte não existe. É apenas o retorno à pátria, à vida verdadeira, no plano espiritual, onde todos nos reencontraremos quando chegar nossa hora. Um dia, dentro de alguns milhares de anos, em estágios superiores de espiritualidade, saberemos que os contratempos e sofrimentos da Terra representam insignificante fração de segundo no relógio da Eternidade.

8  –      Como nos proteger num mundo onde estamos sujeitos a essas ocorrências que não fazem parte de nosso destino?
                        Jesus recomendou a oração e a vigilância, a prudência e a mansuetude, por onde andarmos, exercitando  o Bem, de tal forma que permaneceremos sempre sintonizados com benfeitores espirituais. Assim, ainda que males não programados aconteçam em nossa vida, estaremos todos em paz, na Terra ou no Além, preservando nossa integridade de filhos de Deus.

sábado, 25 de junho de 2011

Sinos da Catedral

Quando os sinos lá na igreja... anunciavam o recolhimento; em forma de oração, meu coração aos pedaços; suspirava bem fundo.
Recolhido em minha casa, feita de varas trançadas amarradas uma a uma.
Era todinha trabalhada e fincada até o chão; eu subia no outeiro, cantava um verso ligeiro ,feito com ar de ousadia
Era a minha oração; tal qual uma Ave Maria vendo o sol se recolher;
Eu ficava meditando; trocava um olhar de saudades vendo a tarde que se ia.
Hoje cansado e saudoso, vendo o cabelo cor de prata; me lembro das serenatas, nas noites de lua cheia.
Lembro também do seu olhar, do andar de deusa mimosa, sentados todos na areia, até a última badalada;
 A noite ia  chegando; eu até adivinhando minha mãe a me chamar.
Cabisbaixo quase rude vendo no céu um ataúde dedilhado pelos anjos o coração soluçando, minha mãe sempre chamando para eu lhe ajudar.
Foi-se o tempo de criança, onde os sonhos são contados, todos de forma prudente, preservando as sementes dos tempos que Deus nos deu.
Ando com o semblante liberto, quase sempre a versejar, contando toda história de um menino aventureiro. Teimoso qual um touro bravo...raivoso batendo as patas, no chão do norte ou do sul ...Mesmo assim sigo adiante contando o que poucos contam dos sinos da catedral ...25/05/2011-15:horas

Na Tua Presença

Ao raiar de mais um dia... Surge um clarão
Despontando em minha mente qual foco de luz;
Descrevo com o olhar um manto luminoso,
Em meus pensamentos, sob os afagos de Jesus;

Com a Tua presença resplandece o Teu semblante,
Na mansidão dos gestos de eterna doçura,
Cuja fronte redentora antevejo o... amor,
Onde descanso minha alma ...Na fonte da esperança...

Calcinado por lutas que me afrontam,
Falas-me  no cálice universal da redenção,
Repositório  do  amargo líquido das imensas lutas,
Acalmadas com o  Teu  olhar...e a pureza da sagrada missão;

De eterna trajetória na comunhão do bem,
Faz-se necessário romper o dourado do amanhecer,
Como a força de um rio de ondas claras e cristalinas,
Aos sons dos clarins que anunciam... o alvorecer;

A grande bênção de amor é a confiança,
Onde busco Encontra-te... Todos os dias...
Meu coração aos borbotões vai vencendo as vagas,
Neste barco de velhas pandas que se agitam

Sob um céu de fortes nuvens que Acalmastes
Um coro angelical entoa canções que me conduz
A propagar bem alto...O Teu nome....
 Jesus...

11/06/2011 –Manoel Resende



quarta-feira, 22 de junho de 2011

Momentos de Saudades

Momentos de Saudades

Nos instantes que me ponho a meditar...me vejo criança...
Meu olhar vagueia pela cabeleira que a neve adornou de branco;
Lembrando-me dos folguedos da minha gente nas fogueiras de São João;
Tinha pipoca quentinha, milho assado mugunzá;
Canjica, milho cozido, arroz doce com canela;
Tinha até pé de moleque feito de puba com coco;
Tinha rojão e ‘espada’ que zunia lá no céu;
Tinha meninas dengosas em seus vestidos de chita;
Cada uma mais bonita, todas enfeitadas de fitas; com chapéus e lindas tranças...
Um sorriso de donzela..., com os lábios avermelhados; parecendo milho assado na fogueira de são João;
Da fogueira até subia... Faíscas  feito estrelas; colorindo o meu sertão;
A menina se chegava com cheiro de pó de arroz...até fazia...o coração suspirar...
Saia rodada enfeitada colorida de vermelho, mais parecia uma deusa;
diante de um grande espelho;
O coração trepidava vendo o vento balançar; os enfeites dos chapéus...deixando o rosto a mostra e  um sorriso angelical...
Olhares feitos de sonhos nos sonhos que a vida ensina; 
Pulseiras feitas de fitas...cada uma mais bonita; e no chapéu uma flor;
A fogueira solitária; pouco a pouco avermelhada contrastando com os balões;
Na hora da despedida...quase morrendo de dor;
 vendo a fogueira se apagando e o rosto envolto em sereno;
Sentia um que de saudades...bum...bum.. bum dentro do peito
E um sorriso quase desfeito, pela fria separação;
Assim eu canto o meu canto; sozinho lembrando tanto
Das festas do meu são João...

21/06/2011
Manoel Resende


segunda-feira, 20 de junho de 2011

chao de memorias/“Vagas”...Denuncias

“Vagas”...Denuncias

Lá fora o frio inclemente... uma calçada gelada;
um cobertor velho surrado... um corpo sujo no chão;
um vazio dentro d’ alma... uma revolta no olhar;
transeuntes assustados... diante da vida cruel;
uma igreja suntuosa ...um copo de aguardente...
um sonho que foi desfeito... uma lágrima no olhar;
uma esperança perdida... num rio que já secou;
um político arrogante... sem moral ou sem pudor;
uma ilusão nos aflitos... um grito envolto na dor;
uma mãe carregando o filho... mãos estendidas a pedir;
um jovem belo; drogado... um país andando em ré;
uma professora sem salário... um bombeiro de quepe na mão...
uma lágrima rolando -, nas fendas do rosto seu;
um parasita assaltando...um corpo inerte no chão;
uma criança chorando, quase sempre a pedir pão;
um presidente em falácias...defende a corrupção;
um idoso sem o médico, nos dias de agonia;
morrendo nos corredores, de uma imunda enfermaria;
a palavra  triste de um  poeta, ecoa no infinito;
a luz não chega nas casas deixa revolta e um grito;
um raio de desespero se acumula em muitas mentes;
um velho baú vazio ...farrapos por todos os lados
uma calçada tão fria...  um cobertos velho; rasgado;
triste esperança desfeita ...miséria por todos os cantos;
assim eu vejo meu povo...
este é um triste  legado...

10/06/2011-


Manoel Resende