Não é de bom alvitre relembrar tantas dificuldades que se foram, todavia o passado nos conforta em comparação com o presente. Hoje, aos setenta e... anos, revivendo e revirando o passado, compreendo que Deus foi generoso com todos nós.
Não foram poucas as agruras vividas. Tinha eu apenas sete anos. As lembranças vividas permanecem até hoje, ocupando espaço na minha alma, despertando uma vontade de chorar e agradecer o que foi a minha infância e o lugar onde nasci.
Lugarejo pobre, sem recursos, como tantos neste Brasil: Divina Pastora, Sergipe. Foi lá onde iniciei os primeiros passos e aprendi as primeiras letras. Brincava de cavalinho de pau, andava pela roça de forma destemida. Via alguns bichos próprios da região. Aprendi montar e levar os animais para beberem água no açude próximo da minha casa.
Luta sem tréguas, guerras sem armas, foi assim que meu pai, afetuoso e decidido, rompeu as barreiras dos sonhos... sonhados em noites de insônia.
Os sete filhos eram seus desafios. Haveria de conquistar outras regiões, tornar-se um herói com as armas dos valores da alma.
Hoje, quando escrevo estas reminiscências,lágrimas vertem dos meus olhos, numa lembrança de ter vivido ao seu lado. Seus braços fortes, o seu coração sensato, a sua força interior, pareciam um vulcão em erupção. Seu olhar de herói que vislumbrava o infinito, numa ação profética acende uma fogueira em mim despertando-me para compreender o mundo que hoje compartilho com os meus.
Aracaju...
Aracaju, nome indígena, mistura de povos, sabores da vida, culinária rica e gostos divergentes. Terra do coco, do camarão farto, das praias limpas, das ruas paralelas, dos poetas e cantadores, das rendas e das rendeiras.
Cansado de tanto sofrimento, tomou a decisão acertada de mudar-se com toda a família para a cidade emergente de Aracaju.
Vendeu seus pertences e, explorado por um dos meus tios, juntou o pouco dinheiro, o suficiente para montar uma pequena mercearia na cidade, na Rua São Cristóvão com Avenida Pedro Calazans.
Cidade nova, desprovida de alguns recursos, mas que apresentava nuances de uma evolução comercial. Bons colégios onde estudamos. No Grupo Escolar Manoel Luiz, desenvolvi minha aptidão pela leitura... Pois certa ocasião teria que compor um histórico que falasse da cadeira, me empolguei e tirei uma nota cem. (dez, como é feito hoje). Citei o invento, sua utilidade, a longevidade da sua origem e a eternidade da sua função, entre os mais belos feitos, o de presentear a família ao redor da mesa ou do aluno sentado, servindo-se dela para escrever comodamente, desenhar e compor as páginas que contam histórias de nossas vidas...
Dos sete aos catorze anos tivemos momentos alternados de farturas e lutas. Decididamente a mais bela e pequena capital do Nordeste, a primeira a ser planejada tal qual um tabuleiro de xadrez, nos presenteou com momentos de paz, abundância e felicidade.
Aracaju, Rua da Frente, Ponte do Imperador, Barra dos Coqueiros, Bairro de Atalaia, Bairro industrial, com a Tecelagem Confiança, ofereciam sinais deslumbrantes de uma cidade promissora. O Mercado Municipal, rico em variedades de frutas, legumes e cereais da região, condições básicas para um povo simples. Havia fartura e tudo o mais que o povo precisava.
Entre os habitantes ilustres Tobias Barreto, poeta renomado que desafiava o baiano Castro Alves em pelejas ricas de versos e poesias. A família dos Mendonças, o Zé Peixe, prático habilidoso e exímio nadador, jogava-se ao mar para acompanhar os navios que necessitavam ancorar na entrada do porto com o seu leito lodoso e raso em alguns lugares, tema de políticos que não chegavam a lugar nenhum.
Aracaju, cartão postal do Nordeste, com os hábitos de uma cidade mansa, pessoas amigas desfrutavam da brisa noturna sentadas em suas varandas contando histórias ou apreciando o luar sob as bênçãos de uma brisa aconchegante.
O bairro onde eu morava era o viço de areia cristalina, fofa e aconchegante para andar descalço e o mote de poesias para os poetas do entardecer. Como é bom relembrar os momentos da infância desfrutando das noites de luar, onde os sonhos acalentavam uma fase da vida qual ato de uma peça de amor. Muitos foram os encontros com os amigos de infância, os jogos de bola de meia e o fervor da adolescência com os sonhos da juventude. Foram momentos inusitados que desfrutamos, alimentando a alma de esperanças e fantasias que o tempo não apagou.
As brincadeiras na rua do meu tempo de criança de cavalinho eu brincava...
Ao mesmo tempo eu olhava as brincadeiras de roda
E as meninas na rua cantigas até cantavam algumas bem engraçadas.
Faziam promessas à lua
Ah! As brincadeiras da rua...
Da minha rua querida onde todos lá brincavam com sentimentos de amor
Lá sim é que eu brincava...
Nas noites de lua cheia sentados todos na areia
Sonhava com o crescer criava sonhos bonitos
Puro só se pensava no bem
Não havia televisão.
O rádio sim existia
E quando o sol se escondia rezava uma suave oração
Ah! Como criança brincava...
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