segunda-feira, 27 de junho de 2011

Quando menino, desfrutei de uma condição pobre, quase miserável, mas nunca perdia as esperanças de dias melhores. Assim aprendi; assim continuei sonhando; procurando, no clarão da lua, os querubins que poderiam nos ajudar.
            Lembro-me de tudo isso - recordo com desejo de agrupar palavras para compor versos de amor à minha casa de pau a pique, do oitão onde dormia uma cabra leiteira, salvação para os três irmãos: Manoel, Nilton e Paulo...
            No fundo, um cajueiro saudoso rendilhava no chão, os raios do sol e da lua cheia. Todos os dias, frutos doces saciavam nossos desejos de nos alimentarmos do necessário para romper o dia seguinte. Os frutos cintilavam nas noites, perfumando o espaço onde brincávamos. As roupas aos frangalhos, eram coloridas com as nódoas do fruto generoso da terra escaldante, e do néctar bendito, que escorria sobre o peito, descendo sobre a pele da barriga empoeirada. Essa foi minha infância, meus primeiros passos, e sentimentos, que suspirei em ritmo de dor e fé.
            No sertão nordestino, crianças não fazem dengo para comer. Se a terra produz alimentos são eles os elementos essenciais para complementar a alimentação escassa de um lugarejo que eu não sei se nos mapas deste País existe.
Pobre período...
Dolorosas recordações...
            Meus pais, dedicados à terra quais rochas, não perdiam as oportunidades de enriquecer a plantação com as sementes generosas. Nos meses que antecediam as chuvas preparavam a terra de forma artesanal, revirando e retirando as impurezas como se fosse uma renovação da alma.
            Desfrutando de parcos recursos de um alquimista, davam au seu trabalho uma forma grandiosa e enobrecedora. Ao brandirem no chão gretado as enxadas, escorria de suas faces o suor que milagrosamente caia sobre a terra como se fosse um ritual de pura simbiose, revigorando-a tal qual uma bênção de luz.
            Embora nossa situação fosse de quase miséria a coragem dos meus genitores era uma realidade. Certamente não seria possível descrever esta história de dor e saudades. Saudades sim! Porque viver no agreste é alegria, superando a dor, com o cheiro da terra quando o inverno aparece.

                                  Chuvas de inverno
                                   Pingos no telhado
Esperança bailando
Alegria futura
                                   Sementes na terra
Esperança de luz
                                   Riachos subindo
                                   Sonhos de paz
            Antônio, o meu querido pai; homem honrado, um tanto enérgico. Carregava na alma o gosto pelo trabalho. Sentia o cheiro da terra; comungava dos sentimentos de ousadia e esperança, agradecia a Deus pela sua força interior, detinha os conhecimentos da sobrevivência com uma ciência intuitiva. Sábio, guerreiro; amansador de burro xucro, explorado pelo seu próprio irmão, agia com lealdade e espírito de uma tenacidade comovente.
            Aventureiro como todo nordestino, desfrutava do respeito para com aqueles com os quais dividia conquistas e honradez vindas do berço.
            Coração generoso e sensível detinha conhecimentos da política brasileira, que o inconformava, devido às desigualdades sociais. Gostava de gente, sentia pelo próximo sentimento de irmandade apreciava música, levava a dura vida, tal qual um poema que fala de esperança, de dores e sofrimentos.
            Minha mãe, tudo indica, é descendente de espanhóis, traz em seu nome Sousa e Oliveira, uma mistura quem sabe também de portugueses, brava sem ser maldosa.         Sentimento altivo chora e rir das coisas da vida.
            Natureza ativa, discordante, teimosa, porém decidida. É possível que eu tenha herdado dela, o arrojo e a coragem sempre presente. Maria; como era chamada pelo meu pai, é uma alma generosa, sábia e desconfiada. Filha de negociantes, tem muito apego aos seus pertences. Ainda guarda peças do seu casamento, sofre desnecessariamente por isso. Porém é o seu jeito de ser. Tomei muitos cascudos e puxões de orelhas. Não guardo mágoas, seus dedos é que eram fortes e minhas orelhas avantajadas, herança do meu pai.
            Por mais que eu possa descrever suas personalidades, será sempre pouco, diante do que representaram para os filhos. Prefiro lembrar que, apesar do pouco conhecimento das letras, suas aptidões pela vida e educação dos filhos foram copiadas do modelo antigo, um pouco castrador, porém eficiente. Se hoje os métodos mudaram ficam devendo em algumas coisas.
            Lembro bem de tudo que passei naquela casa de taipa, portas e janelas rudimentares, telhado primitivo, heranças de uma época de poucos recursos, que deixavam passar além do brilho das estrelas, algumas gotas de chuva, respingando o chão de terra batida e as redes onde dormíamos.
            A engenhosidade para criar os filhos deixava marcas na alma dos meus pais, as incertezas do amanhã, os recursos ínfimos eram sinais de uma eternidade. Dava pena ver o meu pai passar semanas a fio trabalhando nos engenhos de açúcar.           Apesar da minha pouca compreensão eu sentia sua falta e a sua voz. Minha mãe destrambelhava-se, assumindo os compromissos da família. Era uma luta infernal. Poucos recursos. Uma existência de sofrimentos.
            Se não tínhamos o que comer, era feito uma fritada de maturis, utilizando ovos e farinha de mandioca.
            Não é de bom alvitre relembrar tantas dificuldades que se foram, todavia o

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