CHÃO DE MEMÓRIAS
O Nordeste
O lugar onde nasci é pródigo em cultura agreste. Sertão pobre, solo ardente, sol abrasador, vegetação retorcida, formam as caatingas e o cenário de um povo forte, que enfrenta a vida cheia de aventuras, cujo sonho de ser feliz ferve na alma.
Gente de fibra, aventureiros por natureza, coração fraterno combinado com a generosidade do Criador.
O sertanejo é forte, esperançoso e crente da sua fé. Lembro-me de alguns de olhos azuis ou esverdeados, raízes da miscigenação de raças, cujas matrizes vêm dos exploradores e aventureiros do passado, que lhes negaram quase tudo.
Holandeses, franceses e portugueses fincaram no rincão do Norte e Nordeste marcas cuja história é por demais sofrida e exposta em prosa e versos nas feiras, nos encontros de violeiros e repentistas. Têm nos seus expoentes culturais como Rachel de Queiroz, José de Alencar, Rui Barbosa, Castro Alves, Tobias Barreto e muito outr os a chama viva de uma cultura que até hoje é ícone de referência para quem ama sua terra.
Divulgadores da história de um povo que sonha, ama, sofre e alimenta-se de esperanças. Traçaram com maestria, as elegias da minha gente sofrida, mas que purificaram a alma com o tônus da felicidade.
Inúmeros nordestinos, fincados nas regiões do cerrado, calçando alpercatas de couro cru, seguem desafiando a própria natureza, suportando bravamente o calor sufocante e a subjugação do coronelismo perverso.
Enfrentando as adversidades, escrevendo suas vidas sob o sol a pino e a terra gretada, encontrando o mote no sofrimento, conquistam na sensibilidade motivo para compor a vida entoando canções e poesias vindas do espírito aventureiro e, ainda assim, com emoção rica e farta de lirismo.
Homens destemidos e ousados. Continuam desafiando leis. Até para nascer é uma bravura enfeitada de dores e dogmas.
O amor do sertanejo parece o gosto do gato, que ama somente a casa e não o dono. O que não é verdade. O caboclo do Norte e Nordeste carrega no coração o espírito aventureiro, o amor a sua gente, a sua terra e aos seus costumes.
O calor sobre os morros petrificados é o início de uma oração de clamor aos santos. Cactos e répteis, fazem daquele braseiro, o santuário para reprodução.
Nas noites de lua cheia resplandece o clarão do amor, quais pétalas divinais convidando sonhadores para suas promessas e encantos.
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